Filme venceu o Oscar de 2017 ao falar sobre temas como abandono parental, bullying, refúgio no crime e homossexualidade
A infância costuma gerar imagens coloridas, de um brilhante comum à aura da criança. Os matizes em Moonlight existem, mas falta cor à vida de Chiron, um menino de Liberty City, em Miami, que mora com a mãe drogada, de traços borderlines. Sobre o pai, pouco se sabe. Sabe-se porém que Juan, um cubano, dono de uma boca de fumo, teve o papel paterno na infância de Litle – apelido de infância de Chiron. Juan e Teresa, a esposa, serviram como alicerces para o pequeno. Com uma mãe mentalmente pouco saudável e vítima de bullying no ambiente escolar, a criança recorreu diversas vezes ao casal para sentir-se mais perto de um referencial parental.
Em uma das cenas mais célebres, Juan leva Chiron para ensiná-lo nadar no mar. Ali, na água, ele experimenta o afeto que não teve da mãe e a segurança impossibilita pela ausência do pai. Em uma câmera trêmula, num verde marinho encantador, vê-se uma metáfora com o útero. Na aproximação com Juan e Teresa, Chiron nasceu novamente. Adolescente, ele precisou lidar ainda mais com o bullying, com a sua comunicação fóbica e
seu desejo sexual por pessoas do mesmo sexo. É sobre Kevin que recai o amor de Chiron. Nele, coloca sua confiança, deposita seu sentimento mais nobre, mas não tem a coragem de falar sobre isso.
A relação com Kevin ganha, aos poucos, contornos para além da imaginação. Em uma noite de luar, os dois se encontram, começam a conversar, aproximam-se e se beijam. Kevin sente os anseios do rapaz e o masturba. Chiron goza, pede desculpas e o momento fica eternizado na cabeça de Chiron.

Moonlight fala sobre relações parentais, bullying e sexualidade. São aspectos que, de modo individual, em cada sujeito, produzem uma realidade específica. Mas o que há em comum é que, quando nossas dificuldades não são faladas, abordadas, elas insistem em nos frear frente ao desejo.
No dia seguinte, Terrel, um agressor recorrente de Chiron na escola, estimula Kevin a participar de uma espécie de trote. O escolhido para a agressão é Chiron. Assustado, Kevin lhe dá um, dois, três socos. Após cada um deles, Chiron levanta para receber um novo golpe. Até que após o terceiro, cai no chão e é espancado pelos colegas.Não mais que 24 horas após a agressão que sofrera, Chiron, ainda com as marcas da violência, vai à escola e, de forma impulsiva, pega uma cadeira e atinge Terrel. Levado para um centro de reabilitação, o protagonista cumpre sua pena.
Após uma passagem de tempo, Chiron reaparece adulto, e dono de uma boca de fumo – tal qual Juan. Vivendo só, visita esporadicamente a mãe, internada em uma casa de reabilitação. Numa noite aleatória, recebe um telefonema de Kevin que o convida para visitá-lo no restaurante que trabalha. No dia seguinte, ele vai ao reencontro de seu amor agressor, come o alimento que Kevin, já chefe de cozinha, prepara e, depois, seguem para casa do cozinheiro. Lá, Chiron confessa que Kevin foi a única pessoa que o tocou. Fim.
Moonlight concorreu e levou o Oscar de Melhor Filme, em 2017. O ar contemplativo e a narrativa em que pouco se fala parece demonstrar os incômodos com aquilo que se inibe em ser dito pela linguagem. Aqui está a aproximação com a psicanálise. Moonlight fala sobre relações parentais, bullying e sexualidade. São aspectos que, de modo individual, em cada sujeito, produzem uma realidade específica. Mas o que há em comum é que, quando nossas dificuldades não são faladas, abordadas, elas insistem em nos frear frente ao desejo.
Não elevadas à condição de fala, de narrativa, as experiências tendem a retornar como ato, repetição, sonho e atos falhos. Inibições que percorreram a vida de Chiron, na medida em que as situações traumáticas que vivenciou não encontraram uma narrativa enunciada por ele. É sobre esse silêncio em uma noite de luar que se debruça Moonlight, uma obra bela pela capacidade de retratar a vida em suas dificuldades, mas que mostra que sem palavras as distâncias se ampliam e o desejo não encontra possibilidades de se realizar.


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