Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?

Artigo da Madrugada é um novo espaço que busca refletir sobre temas importantes que vinculam assuntos do universo da psicanálise a problemas contemporâneos da sociedade

Em 1932, o físico alemão Albert Einstein escreveu uma carta a Freud e fez a pergunta acima. O psicólogo austríaco não apenas falou de guerra, mas buscou demonstrar como a violência tem sua natureza instintiva, na ideia da prevalência do mais forte sobre o mais fraco. No avançar da história da humanidade, comentou Freud, passamos a lidar, psiquicamente, com esse instinto destrutivo – esse “lidar” surgiu como necessidade para a vida em sociedade. Pode-se supor, a partir da fala do pai da psicanálise, um certo otimismo – utópico, ok! -, imaginando que o avançar do tempo nos levaria a um momento livre da guerra.

Passados 90 anos da troca de carta desses dois ícones do século XX, o prêmio World Press Photo destacou, em 2022, imagens em que a violência, a guerra e a projeção desse instinto destrutivo ganham forma.

Fotografia da canadense Amber Bracken venceu o prêmio World Press Photo em 2022

Um exemplo é a fotografia “Kamloops Residential School”, da canadense Amber Bracken. Na imagem, uma série de cruzes de madeira, em que estão penduradas peças de roupa, lembra o sofrimento de crianças que morreram na Escola Residencial Indígena Kamloops. A instituição, assim como muitas outras do tipo, foi criada para acolher crianças indígenas que eram separadas de suas famílias e levadas a internatos no Canadá. Foi recentemente, porém, que foi descoberta uma vala comum na qual havia restos mortais de, ao menos, 215 crianças indígenas. O instinto de destruição não poupou vidas de crianças.

Longe do Canadá, mas em terra em indígena e brasileira, vem outra imagem (no caso, uma série de imagens) premiada: Distopia Amazônica, do brasileiro Lalo de Almeida. Na fotografia destaque, um jovem segura uma motosserra em meio à floresta. A Amazônia sofre com o desmatamento. Desde 2019, a devastação do bioma brasileiro aumentou seu ritmo em uma década. O instinto de destruição não economiza a vida em seu estado de natureza.

O brasileiro Lalo de Almeida, do jornal Folha de S. Paulo, também teve trabalho sobre Amazônia premiado.

Do outro lado do Atlântico, o fotógrafo francês Guillaume Herbaut captou uma série de imagens na Ucrânia, desde 2013. A ideia era mostrar que o conflito armado, oficialmente iniciado em fevereiro de 2022, tinha começado muito tempo antes. Na fotografia destaque, uma estátua de Lênin é fotógrafo sem ombros e sem cabeça, consequência de ataque de grupos ultra-nacionalistas. O instinto de destruição avançou sobre um território habitado e

Freud parece ter se equivocado, ainda que utopicamente, na ideia de que uma proposta civilizatória levaria ao final da guerra. Mas encontra sentido a ideia que a Guerra e a violência integram o lado mais instintivo do humano? E a saída?

Olhar para o lado oposto da destruição parece ser o melhor caminho. Há que se pensar na criação, na arte nas relações que nos conecta ao outro. Disse Freud: “Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra”. 90 anos depois, Faça amor, não faça guerra continua sendo o melhor caminho contra a destruição.

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